quarta-feira, 19 de março de 2014

Professores nas ruas. Governo, a culpa é sua! CASO TOCANTINS.

Do EducaAÇÃO BR. (Fotos e texto de Dhiogo Rezende)

Já faz um bom tempo que este grito, bradado pelos professores do Brasil inteiro vem ecoando, cada vez mais alto e bom som. Há alguns anos também que órgãos e entidades como a CNTE organizam e apoiam eventos e movimentos como a Paralisação Nacional da Educação, reunindo professores de todas as regiões do país na luta por qualidade na educação pública. Na pauta nacional, estão além da valorização da carreira docente, o que passa pelo respeito à lei do piso, ainda descumprida em vários sistemas municipais e estaduais de educação, 10% do PIB para educação, uso dos royalties do petróleo como investimento no setor e a votação imediata do Plano Nacional de Educação, já bem atrasado, assim como suas metas.

No embalo da paralisação (17, 18 e 19 de março de 2014) surgem os primeiros movimentos de greve por tempo indeterminado no país.

No dia 18 de março, os educadores do Tocantins, em estado de greve desde novembro de 2013, com uma extensa pauta de reivindicações que se arrasta em negociações com a atual gestão do governo do Estado desde a sua posse, quatro anos atrás, deflagraram greve por tempo indeterminado.

Na assembleia geral dos professores da rede estadual do Tocantins, organizada pelo SINTET em Palmas, educadores de todas as regiões do Estado compareceram e em muitas das falas ao microfone, era evidente o descontentamento e o total desgaste da categoria com o atual governo. Depois de inúmeras reuniões desmarcadas pela gestão, somente no dia 17, anterior a assembleia, o governo chamou o sindicato para conversar e mais uma vez fez promessas de empenho, e mesmo assim, com ressalvas sobre pautas obstruídas desde 2012. O sindicato pôs em assembleia a postura de "banho Maria" do governo, sendo totalmente repelida pelos professores. 
Por unanimidade,  a greve foi deflagrada. 
Pautas antigas foram mais uma vez fortemente revividas, como a equiparação salarial entre professores normalistas e os da educação básica. Os primeiros realizam o mesmo trabalho em sala de aula que os demais professores e recebem salários bem menores, tudo por uma questão de nomenclatura do cargo. Constando com destaque na pauta a aprovação do plano de cargos e carreiras com revisões que atendam e valorizem os profissionais, o pagamento da data base que há tempos é motivo de angustia dos professores quanto a sua saúde financeira, que tem seus salários engolidos pela inflação ano a ano. 

A vergonhosa realidade na falta de repasses financeiros as escolas que desde 2013 enfrentam problemas com credores em suas dividas, sem verba para atividades básicas, de material didático até a falta de merenda, contas de água e energia atrasadas e com riscos de cortes.
Presidente da Regional de Tocantinópolis, Cléber Borges. Regional que conta com 100% das escolas estaduais paradas.
Calotes do governo!
O descaso com mais de 400 professores contratados (e suas famílias) que desde o ano passado não recebem seus acertos (até antes da paralisação), já que é prática do governo demiti-los antes do ano letivo acabar e readmiti-los depois que as aulas iniciam, o que causa transtornos nas escolas e prejuízo aos estudantes, tudo para diminuir custos com 13%, férias, etc, como também não receberam ainda o mês de fevereiro, tendo previsão de pagamento só em abril ou maio.

Situações atestadoras de uma realidade que contrasta com as propagandas do governo, que mostram em cores e tons vibrantes, que a educação tocantinense avança firme e forte, "efeitos pirotécnicos" que sempre tendem a aumentar em anos eleitorais.

Politicagem com a educação e assalto a previdência dos trabalhadores.

Somadas todas as reivindicações que amargam a educação no Tocantins, sendo motivo de tristeza pelos que dela dependem e a fazem no cotidiano das escolas, há uma que infelizmente faz parte de todo o nosso sistema político nacional. É também motivo de luta, a eleição de diretores e o fim da intervenção política e partidária nas escolas, onde políticos indicam quem entra e quem sai das unidades, visando claramente conchavos e acordos políticos-eleitorais em detrimento da qualidade de ensino e aprendizagem. Política (gem) que apodrece as instituições e lesa os direitos dos trabalhadores. 

Sendo um dos pontos mais discutidos e temidos pelos professores, principalmente aqueles que estão prestes a se aposentar, a falência do sistema previdenciário dos funcionários públicos do Tocantins (IGEPREV-TO), que segundo apurações preliminares, está com um rombo de mais de 150 milhões de reais. Fato que ainda não é muito sabido pelos tocantinenses e nem debatido entre os deputados na câmara estadual. Só agora, por pressões do Sindicato dos professores, sondam, ainda sem muita definição, a instalação de uma CPI na casa. 

Professores saem do sol e do calor, costumeiro em seus ambientes de trabalho, e ocupam a refrigerada Secretaria de Educação. 
Dentro da SEDUC - TO. Na frente do gabinete da secretária trancado, o Presidente do SINTET, José Roque e a multidão de educadores. 
Assim, além de tudo, ainda mais essa, para os professores que adoecem ano após ano neste árduo trabalho de educar os jovens deste país, terem tantas dificuldades para se aposentarem, e a sua sobrevivência depois de 30, 35 anos de serviços prestados terem essa tamanha ameaça de não terem sua aposentadoria integral, fruto dos seus anos de contribuição, dinheiro do trabalhador que é usado inescrupulosamente por aqueles que em épocas de campanha, na TV, em rádios, em jornais e papeis bonitos, esbravejam que são AMIGOS DO POVO, preocupados com os professores e a educação.

Assim, faz-se a pergunta, professores nas ruas, ao invés de estarem em salas de aula trabalhando dignamente pelo futuro de milhões de jovens, é ou não é culpa daqueles que administram este país?
 
Aparelho Repressor
Enquanto o trio elétrico estava posicionado em frente a SEDUC, centenas de professores expostos ao sol escaldante de Palmas, se concentravam na entrada do prédio público para ouvir e falar as mazelas da educação e de suas profissões, um fotografo surge de uma das janelas da secretaria, focava sua câmera estrategicamente nos lideres da manifestação. Alguns sindicalistas mais experientes, dizem que esta prática é antiga, as fotos dos lideres são depois analisadas para possíveis identificações, para que estas lideranças sejam incluídas em uma "lista negra" do Estado.

Apoio dos estudantes a greve de seus professores.
Estudante secundarista de Palmas, junta-se aos professores e vestindo a camisa "Operação: Respeito ao Educador", desabafa e critica a forma com a qual sua escola e a educação do seu Estado é tratada pelos governantes.




domingo, 23 de fevereiro de 2014

Voltam às aulas. E a educação, quando chega?

Do educAÇÃO BR. 

Desde o inicio de fevereiro de 2014, estudantes brasileiros matriculadas na educação básica, de instituições públicas e privadas, voltaram. Voltar a estudar, a frequentar as aulas no Brasil, não necessariamente quer dizer que as aulas voltaram. Se entendermos “aulas” como abrangência de um sistema educacional preparado e sólido para assim definirmos “aulas” como uma espécie de bem (serviço) acabado e pronto para devida aplicação e desenvolvimento.

Sabemos que no Brasil não é assim que a banda toca, ao menos não antes do trio elétrico passar. Nas privadas, boa parte delas, partindo dos discentes que por suas vez influenciam parte dos docentes ou vice e versa, as faltas, atrasos, molezas de ambos os corpos, as aulas só voltam mesmo, de fato, após o carnaval, assim como é o regresso de muitas outras atividades neste “país tropical e abençoado por deus”. Mas quando se trata de educação pública, serviço prestado a população, de responsabilidade dos poderes públicos, a coisa pode ficar bem mais complicada, um samba sem nota alguma.  

Primeiro: as prefeituras e estados não tem o costume “republicano” e constitucional de fazerem concursos públicos, a população também não tem o hábito de reclamar ou denunciar no ministério público, que por sua vez, não tem estrutura humana ou técnica administrativa para fazer cumprir a lei. Resultado, as escolas são sim cabides de emprego, aliás, são varais, levando em consideração que o número de funcionários da educação é sempre muito volumoso. Os contratos temporários são “coronelisticamente” usados para barganhas eleitoreiras, além de “economias” com impostos e demais gastos quando o servidor não é efetivo.

Muitas SEDUC’s (Secretarias de Educação) Brasil à dentro, eliminam os contratos maliciosamente dias antes do fechamento da folha de pagamento no fim do ano, para com isso não terem que pagar o último salário integral (acima ou abaixo do piso), o que mexe também com o décimo terceiro, onde nesse processo, as férias desses profissionais podem ser literalmente uma furada. Sem vínculo, eles ficam a humilhante espera de mais um ano letivo, este que "começa e não começa" em fevereiro, nem para os contratos, nem para os estudantes. O regime de contratação não é feito a tempo de o professor entrar em ação no primeiro dia de aula. Resultantes da falta de vontade, de competência do poder público dos municípios e estados, essa “volta às aulas”, pode ser em mais ou menos tempo.

Segundo: como falei sobre as escolas particulares, onde em parte delas (as mais baratas e menos elitizadas), as aulas só voltam de fato depois do carnaval. Contudo, quando passa o período momesco, o ritmo das particulares segue freneticamente, pausando só em ano de copa do mundo (como bons brasileiros). Os pais estão pagando e querem ver resultados, filhos aprovados nas melhores instituições de ensino superior, paradoxalmente as federais, estaduais, públicas, aos demais, as privadas pelo PROUNI. Os professores são empregados, nesse sistema tem que render, ou então estão fora, por isso o cabresto pode trazer melhores desempenhos, o que não é tão complicado com turmas de ensino médio, cujo os estudantes tem em casa, a lei da meritocracia melhor definida pelos pais.  

Já nas públicas, os efetivos, parte deles, não ligam tanto para compromisso ou "missão", ou para garantir uma renda decente, tem que multiplicar a carga horária, em escolas diferentes, o que pelo desgaste, inviabiliza uma qualidade didática. Estes acabam faltando muito, por não adequação de horários, ou mesmo por doenças adquiridas nessa “vida louca”. Assim, o docente de escola pública, mesmo o contratado pode ser levado a faltar também, menos que o efetivo é claro, mas nesse ambiente nada producente, anti-didático cognitivo, carregado de riscos e insalubridades, quando a falta não é física, é mental, até espiritual em sala de aula. 

Terceiro: Professores sabem dar aula (nem sempre e nem todos), mas não sabem falar de política, papel singular dos que tem as disciplinas de história, sociologia, filosofia, com toda a gama de pejorativos e estigmas degradantes e deturpadores, que enfim derrubam discursos mais preparados a defesa da classe e da educação nacional.


A falta de maturidade, habilidade e formação política dos trabalhadores da educação em suas organizações sindicais ou partidárias, interferem diretamente na vida escolar. As aulas têm várias voltas, depois das férias e depois das greves (inúmeras). Um direito legítimo, conseguido a base de muito sangue na grande história da humanidade que é a da luta dos povos contra seus opressores, pode ser desqualificado e sabiamente usado pelos governos que jogam a população contra os grevistas. 

As vezes, por questões eminentemente políticas entre direções, suas oposições de sindicatos e governos, situações que urgem greve não são consideradas e em outras menos graves, faz-se logo alertas de estado de greve. Não é surpresa que a greve em muitos estabelecimentos escolares tenha um tom de folga, de descanso para alguns professores, quando justamente deve ser o contrário, o sentido do combate para se ganhar a guerra e assim a paz de não precisar mais ir a campos de batalha, ao menos por um bom tempo, e não a cada seis meses ou de ano em ano. Quando da volta, depois de semanas, meses parados, há que se pagar aulas em finais de semana, em períodos culturalmente tidos como férias, de modo que assim, nada volta de fato e da forma que deveria ser. 

Quarto: não acordamos enquanto povo historicamente oprimido e explorado. Somente levantamos assustados no meio da noite. Revoltados, estamos mais atentos para a corrupção, má aplicação do dinheiro público, arrecadado de exorbitantes impostos, nossa péssima segurança, saúde doente terminal. O “despertar” que vimos em julho de 2012, assim como as aulas, também não volta, ainda não colocamos de fato, a educação como primeira e essencial pauta de lutas para uma revolução real neste país.

Estamos nessa inércia antológica, não vemos nas escolas públicas, grêmios, estudantes e pais irem às ruas, nas portas das secretarias pedirem explicações ou exigirem um retorno das aulas digno, em certos casos, que os secretários de governos chamam de pontuais, as faltas (temporárias/eternas) de transportes escolares, de merenda, de livros (com recursos já previstos, até já comprados), fora a falta de professores já mencionada nos primeiros dias, semanas e até meses do ano letivo, não provocam a fúria dos diretamente afetados, consequentemente, não há interesse da nossa mídia, quando não omissa em parceria com o estado, é anti-jornalistica já que julga tais pautas como perda de tempo, recursos e audiência. 

Vivemos em um país que elege professores como coitados e jogadores de futebol como parlamentares, estes sim são heróis, dividindo espaço no nosso Olimpo com os big brothers e cantores pop's. Os melhores estudantes querem tantas coisas, menos serem professores, o estudante brasileiro não lê mais de um livro por ano, muitos chegam ao final do ensino médio contando nos dedos da mão esquerda do Lula. Praticamente metade da população é semialfabetizada ou analfabeta.

Vivemos na última década um notável crescimento das vagas e do acesso aos bancos escolares, da educação básica, técnica e superior, mas nem de longe, há uma relação proporcional com a qualidade. Nossas melhores universidades não estão entre as cem melhores do mundo, ensino, pesquisa e extensão harmônicos são raridades, são ainda pequenos investimentos na educação, produção científica. Os IDEB's contradizem os altos níveis de aprovação nas escolas, números ao sabor dos governos. Nossas avaliações internacionais como a do PISA, nos afundam, jogam nossa educação para bem aquém de países cujo Brasil está bem além no aspecto econômico bruto. 
Trecho de última entrevista de Paulo Freire.

Para completar, temos copa do mundo, olimpíadas e bilhões de reais para as mesmas, o que soa no mínimo um capricho dos nossos governantes, pois não temos hospitais, escolas, segurança, vias publicas, rodovias, aeroportos nos padrões FIFA. Para este país dar certo, temos uma saída, esta que tem uma placa em letreiros garrafais dizendo: EDUCAÇÃO. Como Paulo Freire na década de 80 disse em entrevista, cansado, mas não descrente de sua utopia, disse que queria ver o Brasil das marchas, dos sem terra, dos sem teto, dos sem segurança, dos sem afeto, dos sem liberdades, sem emprego, sem renda, dos sem educação, dos mal educados, mas bem vivos para dizer ao governo quem é que manda em quê e quem. 

Assim, o problema não está na volta das aulas que não volta, e sim, na volta das aulas sem sentido de voltarem, para ser mero e mau cumprimento da lei, da sua volta sem sua permanência e progresso. Quando é que essa volta será acompanhada da educação que vem para ficar e crescer no Brasil? Quando as marchas mencionadas por Freire serem também uma constante, e por essas, as aulas darem um tempo, pela greve construtiva e legitima, pela luta que se faz diariamente e pelo país que não pode voltar a ser o que nunca foi. Não um país de “voltar”, mas um país de “ser”, ainda no presente, continuadamente pelo futuro.  


sábado, 21 de dezembro de 2013

Formatura Escolar na Aldeia Indígena. Uma aula de interculturalidade.

Os Apinayé tem em duas de suas aldeias, escolas que atendem o ensino fundamental e médio. A formatura no ensino médio é o primeiro passo para outros ainda maiores para nossos índios. A escola se faz espaço de interculturalidade onde os indígenas podem dar (até certo ponto) as cartas do jogo.
Vídeo com imagens da cerimônia de formatura. 

Do educAÇÃO BR

Na noite de sexta feira do dia 6 de dezembro de 2013, estudantes e professores do curso de ciências sociais da UFT – Tocantinópolis, os antropólogos André Demarchi e Odilon Rodrigues e a doutora Liza Brasílio. Fizeram parte do grupo convidado pela direção e coordenação da escola Tekator do povo Apinayé, para acompanharem a formatura dos estudantes concluintes do ensino médio. 

Para muitos era a primeira vez que pisavam em uma aldeia indígena, para outros a familiarização estava dada. Como toda cerimônia, independente da cultura, naturais são os atrasos e contratempos, o que não diminui a importância do evento e dos participantes, principalmente para os envolvidos diretamente, como os índios formandos e seus familiares.

O espaço escolar estava literalmente lotado, a comunidade da aldeia estava em massa como espectadores, homens, mulheres, idosos, crianças de todas as idades. Pelo que constou, a cerimônia deveria acontecer no centro da aldeia, ao ar livre, como é de costume dos Jês, no entanto a chuva desse dia não permitiu tal localização.

Enquanto a formatura não iniciava, uma trilha sonora com cantos de um coral indígena fazia a ambientação sonora, o espaço da escola, destinado normalmente a uma espécie de refeitório, cadeiras em duas metades, uma para os formandos, outra para os padrinhos e madrinhas.

Um púlpito decorado com folhas, sementes, enfeites naturais, assim como a mesa com frutos, caroços, sementes, folhas, artesanatos e um tecido vermelho, aguardava a presença de convidados importantes na área da educação, representantes da direção escolar como o Júlio Kâmer, o diretor regional da secretaria de educação estadual Dorismar Carvalho, membros da FUNAI, representantes da Universidade Federal do Tocantins como a Drª Liza Brasílio.

Os formandos e seus respectivos padrinhos e madrinhas estavam em uma das salas de aula se preparando para a formatura. As mulheres com suas pinturas corporais assim como os homens, o preto do jenipapo e o vermelho do urucum estavam presentes em traços geométricos ligeiramente assimétricos. As mulheres em maioria não estavam nuas, cobriam os seios com sutiã, algumas mais velhas deixavam os seios amostra, uma peça de palha trançada era usada como saia, algumas também nos homens que padronizadamente usavam shorts com escudos de times de futebol, do Brasil e até de clubes estrangeiros.

Enquanto os formandos se preparavam, muitos dos estudantes aproveitaram para tirar fotos deles, notei que na maioria gostavam dessa exposição, alguns até pediam para que tirassem fotos, sendo notável a timidez de outros diante de estranhos e suas máquinas fotográficas. Mas sem nenhum constrangimento ou algo que se tornasse um conflito ou um choque.

Começa então a formatura, um mestre de cerimônia, professor não indígena, com rosto pintado, com peças e acessórios indígenas fala no microfone os protocolos da cerimônia. Cerca de 15 a 20 pares (formandos e padrinhos) entram um por vez e se separam, cada um para uma das bandas de cadeiras. Após todos os casais entrarem, uma menina entra com um artesanato que continha todos os “canudos”, diplomas da conclusão de cursos que seriam entregues pelos representantes de entidades postos na mesa central, mediante chamadas os formandos recebiam seus diplomas e pousavam para fotos, executadas por máquinas e celulares, tanto de não indígenas como de indígenas.

Houve alguns oradores, um dos professores indígenas dos formandos discursou sobre a importância do fato e a necessidade da continuidade dos estudos, como decisivo para o fortalecimento da cultura Apinayé. Um missionário da Novas Tribos do Brasil discursou com um Apinayé bastante fluente, o diretor regional da SEDUC-TO falou de alguns problemas ocorridos durante este ano letivo e deu como exemplo alguns índios que estavam no percurso acadêmico das universidades, e que os formandos presentes poderiam trilhar o mesmo caminho, assim como completou a representante da UFT que informou a comunidade a presença de estudantes indígenas no campus de Tocantinópolis e respectivas bolsas de auxilio permanência estudantil.

O diretor escolar Júlio Apinayé fez a oratória final, em Apinayé e depois em português, valorizou o evento e os formandos, assim como a cultura e a educação indígena como forma, instrumento político de resistência e consciência étnica do povo Apinayé.

Assim como na abertura cuja canção tinha a palavra Jesus em meio às palavras em Apinayé, o encerramento foi com apresentação de dança e canto indígena feita por professores, formandos, padrinhos e madrinhas. As mulheres em fila e um grupo de homens à frente, liderados por um tocador de maracá e puxador do coro, um cantor que se movimentava ritmicamente para cada uma das extremidades da fila das mulheres a sua frente. Um banquete foi oferecido pela escola aos formandos e familiares que lotaram uma das salas de aula.

A interculturalidade e os esforços de ambos, índios e não índios para a mesma ser uma realidade no evento foram observáveis e nítidos, dentro de um espaço que não é original da cultura indígena, mas encontrando-se cada vez mais na escola, apropriada, feita por índios, a sua identidade e manutenção de suas culturas, um bom instrumento na luta contra o desaparecimento ou esquecimento cultural.

Fica a reflexão sobre tal convivência que nem sempre é harmoniosa nos vários cantos, recantos e regiões do país onde a fricção interétnica é inevitável desde séculos atrás nos tempos coloniais que ainda refletem, assim como os conflitos.

Gamas de preconceito e discriminação, muito mais por parte dos brancos, acostumados a uma história e uma sociedade que é montada ou fabricada por eles mesmos, o colocam em graus hierárquicos bem acima das populações indígenas. Lembrando que o convite para a participação da formatura indígena aos “brancos”, como constantemente foi feito pelos indígenas. Quando será que veremos com mesma ou mínima intensidade o convite inverso?

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Educação indígena é pauta pioneira em congresso sindical de professores do Tocantins


O SINTET fez seus 25 anos, o Sindicato dos Trabalhadores em Educação do Tocantins, realizou seu 10º Congresso entre os dias 14, 15 e 16 de novembro, na Escola Municipal de Tempo Integral Padre Josimo, em Palmas. Pela primeira vez em sua história, incluiu como pauta de luta, a defesa dos interesses dos professores e da educação indígena, docentes índios e não índios da rede estadual de ensino, seu sistema responsável. 
Foto de Dhiogo Rezende. 

Em 2013, o Tocantins que nasceu com a Constituição Federal de 1988, também comemora seus 25 anos de história. Pelos braços do sindicato de seus professores e seu despertar para um sindicalismo indigenista, deu um abraço fraterno nas comunidades indígenas das sete etnias registradas em território tocantinense, as que contam com escolas em parte de suas aldeias, passam a ter apoio sindical por melhorias na educação. No topo do brasão do Estado do Tocantins, vê-se a frase em tupi: “Co yvy ore retama”, que significa em português “Esta terra é nossa”. Com o desenvolver de mais políticas públicas e da inclusão das minorias como a indígena em seu aprimoramento organizacional, frente a sociedade envolvente, esta frase tupi pode um dia fazer bem mais sentido. 
Plenária do Congresso do SINTET no auditório da ETI Padre Josimo - Palmas (Foto de Cleber Borges)
O pioneirismo da adesão sindical indígena brotou na Paralisação Nacional da Educação que ocorreu durante três dias de abril de 2013. Na cidade de Tocantinópolis, que abrange parte do território indígena Apinayé, professores índios e parte da comunidade indígena fizeram volume e trouxeram suas reivindicações junto aos protestos dos professores não índios da educação da sociedade nacional. A participação indígena junto ao SINTET Regional de Tocantinópolis foi reportada pelo EducAÇÃO BR. Veja no link: http://educacaobr.blogspot.com.br/2013/04/professores-indigenas-na-paralisacao.html
Professor Júlio Apinayé e Cleber Borges, Presidente Regional do SINTET em Tocantinópolis - TO (Foto de Dhiogo Rezende)

O professor Júlio é formado em Educação Intercultural pela UFG e é um dos três professores indígenas filiados no sindicato em todo Estado.
Após palestra sobre o histórico situacional da educação indígena no Brasil e no Tocantins coordenada pelo Professor Dhiogo Rezende, sindicalizados montaram propostas de luta a serem encampadas pelo sindicato, onze pontos foram para plenária do congresso e foram todos aprovados sem destaque.
Palestra-debate do grupo da Educação Indígena no Congresso do SINTET (Foto de Dhiogo Rezende)
O Prof. Júlio Apinayé deveria estar presente junto ao Prof. Dhiogo Rezende para coordenar o grupo, esteve ausente por questões de ordem médica. 
Equiparação de direitos, condições de trabalho e salários, respeito aos direitos de igualdade e diferença, representação oficial nas diretorias regionais assim como uma cadeira na direção central (Palmas) do SINTET, são parte da pauta de luta sindical em favor da educação indígena.  O Tocantins conta com cerca de 300 professores (índios e não índios) nas 92 escolas em comunidades indígenas que representam uma população de mais de 13 mil habitantes de sete etnias. 5.540 alunos indígenas estão matriculados. Dados da PPEI – SEDUC –TO 2013.

As escolas são cada vez mais requisitadas por povos indígenas, buscam através delas um meio de reaver e reavivar suas histórias e culturas. O direito a uma educação diferenciada, bilíngue, que tenha um currículo com disciplinas e conteúdos de interesse as comunidades indígenas, em suas particularidades, além dos formais da sociedade nacional, é garantido na Constituição de 1988 e vem sendo regulamentado por meio da legislação. 

Os olhos e mentes indígenas veem e pensam educação de forma diferente, de modo “antiaculturador”, como define Ferreira (2001, P.71): “Para os índios, a educação é essencialmente distinta daquela praticada desde os tempos coloniais, por missionários e representantes do governo. Os índios recorrem à educação escolar, hoje em dia, como instrumento conceituado de luta.”.

Um grande avanço verificado no processo da educação indígena é que a maioria dos professores são índios (GRUPIONI, [2005]), fato que emerge das propostas e políticas que criaram cursos de formação de professores indígenas, vagas para indígenas em universidades federais. Superando um modelo jesuítico de educação, como vem acontecendo um protagonismo na área da saúde, os povos indígenas vêm atentando para a importância da participação como atores, agentes criadores, educadores autônomos nas escolas, fazendo-a de via transformadora e positiva para a sustentabilidade e independência de seus povos.         

Em meio aos avanços, é preciso ter ciência das deficiências e situações de exclusão na educação escolar indígena. Partindo do pressuposto de que na educação não indígena, há grandes desassistências, descasos por parte do poder público que descredenciam o sistema educacional brasileiro internacionalmente, a situação das escolas indígenas está ainda mais aquém dessa situação.

Referências:

GIANNINI, Isabelle Vidal. A dimensão educativa do projeto de manejo socioambiental na área indígena Xikrin do Cateté. In: SILVA, Aracy Lopes da; FERREIRA, Mariana Kawall Leal. Antropologia, história e educação: a questão indígena e a escola. 2. ed. São Paulo: Global, 2001. p. 223-224.

GRUPIONI, Luis Doniseti Benzi. Censo escolar indígena. Disponível em <http://pib.socioambiental.org/pt/c/politicas-indigenistas/educacao-escolar-indigena/censo-escola-indigena> Acesso em 10 out. 2013.

GOMES, Dhiogo Rezende. Educação indígena no Brasil e no Tocantins. Um breve histórico situacional. Caderno de tese e de apoio aos debates dos grupos no 10º Congresso do SINTET. Palmas. 2013.   









sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Propaganda e Realidade: a educação do governador que sonha ser presidente!

Estudante põe dedo na cara do Governador
Propaganda do presidenciável em 2014

Do educAÇÃO BR. 

A propaganda é a alma do negócio, a demagogia não deve ser espirito da política. A criticidade e a politização podem separar os discursos das práticas.

Estudante grava vídeo com ajuda de colegas, posta na internet e contraria todo o pacote publicitário do pré candidato a presidência do Brasil, o governador de Pernambuco, Eduardo Campos. O vídeo com cerca de 20 mil acessos até o momento mostra em suas imagens uma escola recentemente construída com a estrutura seriamente comprometida, trata-se da escola estadual Professor Manoel Joaquim Leite, no município de Cedro, no sertão, a 490 quilômetros do Recife.

Em meio as imagens de rachaduras nas paredes, tetos, o estudante de 15 anos mostra politização ao se reportar ao governo do estado e cobrar com duras críticas a responsabilidade do órgão e autoridade competente, fazendo paralelos entre o que é propagandeado pelo governo na área da educação em Pernambuco e a realidade da educação no Sertão do estado.

Campos que já está em corrida eleitoral, o que é visto com muito mais intensidade na mídia que já nos bombardeiam com propagandas partidárias, inclusive para os presidenciáveis, entre eles o governador Eduardo, presidente do PSB.

Eduardo recebe muitas críticas por sua administração na área da educação, professores reclamam muito da falta de condições de trabalho e remuneração salarial, esta que coloca o soldo dos professores pernambucanos entre os mais baixos do país.

Ao passo que é duramente criticado, Campos é recordista de votos e de índice de aprovação entre os pernambucanos. Na capital Recife e em todo o estado, não faltam problemas, alguns aceitáveis, outros nem tanto ou intoleráveis, principalmente quando se trata de um político que está disposto a dar um passo bem maior que é governar não só um estado, mas todo país.

Analisar o fenômeno político de crescimento da legenda do PSB, a estatura alcançada a nível estadual e regional do neto da lenda política Miguel Arraes, em plena corrida eleitoral com direito a "surpresas de Marina", paralelamente a toda sorte de críticas e descasos reais mostrados em tons e cores vibrantes e sem efeitos como no vídeo do jovem estudante pernambucano, contrapondo outras imagens e discursos eleitorais de Eduardo Campos, acompanhado do seu belo par de olhos azuis é essencial nestes tempos de fervor populacional das ondas (mais fracas) de manifestações, para entender ou visualizar o que se segue até a abertura das urnas em 2014 e depois com seus resultados e consequências no futuro.  

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Estudantes e professores pesquisam preços de cesta básica em Região do Tocantins.



Nos meses de agosto e setembro de 2013, alunos da 3ª série do Ensino Médio do Colégio Dom Orione, sob a orientação e supervisão do Prof. Willian Costa de Medeiros (Filósofo), auxiliado pelos professores Dhiogo Rezende (Historiador), Alessandra Brandão (Geógrafa) e Hélida Queiroz (Pedagoga), realizaram uma pesquisa de campo em Tocantinópolis/TO, Porto Franco/MA e Estreito/MA, nos diversos supermercados para comparação dos preços, produtos e o valor de uma cesta básica. 


Observando o fato de que muitos dos nossos alunos irão estudar em outros Estados ou cidades da federação, com pouco recurso deverão saber administrar de forma econômica o pouco dinheiro oriundo de auxílio familiar ou bolsas de estudos, além de auxiliar os estudantes a fazerem uma boa pechincha, serve como utilidade pública para a população da região. Por exemplo, o valor de uma cesta básica atual é compatível ao salário mínimo de R$ 678,00? Frente a essa questão, fizemos reflexões coletivas durante algumas aulas de Sociologia e o impacto causado na qualidade de vida dos cidadãos.
Em consonância com o conteúdo do bimestre da disciplina de Sociologia sobre a “Desigualdade social no Brasil”, a pesquisa foi de grande importância para que possam identificar as diferenças de preços e qualidades de produtos ofertados à população de baixa, média e alta renda da região. Como de previsto, foram identificadas as desigualdades sociais existentes. Sempre as populações de baixa renda adquirem produtos mais baratos de qualidade inferior, ao contrário da população de média e alta renda.         

O aproveitamento foi satisfatório, pois nossos alunos puderam observar a realidade social sobre o assunto em questão para se fazer um consumo consciente. Resultado gerado por meio do auxílio de duas perguntas básicas. A primeira foi pra saber se o consumidor sempre utiliza o comercio local para fazer as compras e a segunda onde fazem as compras. Os alunos entrevistaram 130 provedores (as) de família, das 130 pessoas entrevistadas 99 fazem suas compras no comércio local, ou seja, 76,2% das pessoas, enquanto as outras 31 fazem suas compras em outras cidades, ou seja, 23,8% das pessoas.
 Não considerando Tocantinópolis, as cidades mais citadas, pela ordem de procura para as compras são: Imperatriz, em 1º lugar; Estreito, em 2º lugar; Porto Franco, em 3º lugar e em Araguaína, em 4º lugar. Porto Franco e Estreito não foram incluídos na pesquisa da entrevista sobre onde às famílias fazem as compras, uma vez que na mesma estávamos interessados em saber somente onde a população de Tocantinópolis compram os produtos citados na tabela.

Em posse dessa pesquisa é possível fazer um consumo consciente sabendo onde encontrar o melhor preço de uma cesta básica nos estabelecimentos comerciais da região. Queremos provocar também nos  comerciantes uma criatividade para atrair a clientela por meio de preços atrativos e levar o consumidor a procurar o comércio que oferece melhor  
preço. Como se pode observar na tabela abaixo, o valor de uma cesta básica de um estabelecimento comercial para outro tem diferença de até R$ 38,90 (produtos de melhor qualidade) e R$ 17,41 (produtos de menor qualidade), com estimativa de erros de 2% para mais ou para menos.

Nossos alunos, ao fazerem essa pesquisa, perceberam que poderão fazer uma boa economia sendo consumidores conscientes. Confira, na tabela abaixo, os 22 itens que compõe a cesta básica, os estabelecimentos comerciais e seus respectivos preços.

                                                                                                                      
      


ESTABELECIMENTOS

Produtos de menor qualidade
ESTABELECIMENTOS

Produtos de melhor qualidade
ITENS DA CESTA BÁSICA

Supermercado Batistão (Estreito)
R$ 56,99
Comercial Meneses
(Tocantinópolis)
67,85
1. Arroz tipo 1
05 kg
2. Feijão Carioca Tipo 1 – 01kg
3. Óleo de Soja
1L
4. Açúcar cristal
02 kg
5. Café Torrado e Moído Pilão
250 g
6. Farinha de Mandioca 520g
7. Farinha de Trigo 01 kg
8. Fubá 500g
9. Macarrão Espaguete 500g
10. Sardinha
135g

11.Tempero Completo
300g
12. Leite em Pó
400g
13. Goiabada
300g
14. Extrato de Tomate 250g
15. Flocos de milho 500g
16. Sabão em pó
01kg
17. Creme dental 90g
18. Sabonete 90g
19. Sabão em barra (unidade)
20. Palha de aço
(pacote)
21. Desinfetante
500g
22. Papel higiênico
(pacote com 4)
Supermercado Baratão
(Tocantinópolis)
R$ 60,50
Supermercado Batistão (Estreito)
R$ 74,10
Comercial Meiry
(Tocantinópolis)
R$ 60,13
Comercial São Francisco (Tocantinópolis)
R$ 79,30
Armazem Carneiro
(Tocantinópolis)
R$ 61,49
Casa Marinho
(Tocantinópolis)
R$ 80,25
Casa Marinho (Tocantinópolis)
R$ 61,50
Comercial Meiry
(Tocantinópolis)
82,59
Supermercado Marisilva (Tocantinópolis)
R$ 62,71
Supermercado Baratão
(Tocantinópolis)
R$ 86,76
Comercial Rodrigão
(Tocantinópolis)
R$ 64,25
Comercial Messias
(Tocantinópolis)
R$ 87,40
Supermercado Batistão (Porto Franco)
R$ 65,95
Comercial Bom Jesus
(Tocantinópolis)
R$ 88,15
Comercial Miranda
(Tocantinópolis)
R$ 66,55
Supermercado Batistão (Porto Franco)
R$ 88,39
10º
Comercial São Francisco (Tocantinópolis)
R$ 67,60
Armazem Carneiro
(Tocantinópolis)
R$ 88,90
11º
Comercial Meneses
(Tocantinópolis)
R$ 67.80
Comercial Rodrigão
(Tocantinópolis)
R$ 89,10
12º
Supermercado Netão
(Tocantinópolis)
R$ 68,90
Supermercado Trevo
(Porto Franco)
R$ 89,27
13º
Comercial Bom Jesus
(Tocantinópolis)
R$ 70,95
Casa do Consumidor
(Tocantinópolis)
R$ 91,90
14º
Supermercado Martins
(Porto Franco)
R$ 71,96
Peg Pag Globo
(Tocantinópolis)
R$ 94,15
15º
Supermercado Trevo
(Porto Franco)
R$ 72,11
Supermercado Martins
(Porto Franco)
R$ 96,31
16º
Comercial Messias
(Tocantinópolis)
R$ 72,40
Supermercado Marisilva (Tocantinópolis)
R$ 98,86
17º
Supermercado Bom Sucesso (Porto Franco)
R$ 72,72
Supermercado Bom Sucesso (Tocantinópolis)
R$ 106,04
18º
Peg Pag Globo
(Tocantinópolis)
R$ 73,50
Supermercado Netão
(Tocantinópolis)
R$ 106,72
19º
Casa do Consumidor
(Tocantinópolis)
R$ 74,40
Comercial Miranda
(Tocantinópolis)
R$ 106,75

                   
                   
FONTE: Pesquisa realizada nos estabelecimentos comerciais de Tocantinópolis, Porto Franco e Estreito.